Apoena,
Eu espero a aula começar, meu pai no saguão, lendo o jornal. Levanto a tampa e o piano sorri, branco e vago, implorando algum som. Mas eu não sei lhe tocar, disseram meus dedos. E o piano estrondo, rancoroso da última vez que o professor deixou de tocá-lo para me. Meus dedos trêmulos tentando fá alcançar enquanto seus dedos por baixo de minha saia, tentando lá, sustenido, faz quase Sol e a partitura dizendo-lhe pausa de oito tempos! Pausa de oito tempos! Deixe-me respirar! Mas o professor desamarrando as cinco linhas do pentagrama e as amarrando em minhas mãos. Quando não pude mais, seus lábios toquei, sobre as oitavas, eu. Já reparou como o orgasmo é, silenciosamente, agudo? Implodi. Suaves estilhaços. As colcheias têm pontas. Há música dentro de mim fá sol. Meus dedos agarrados às teclas do piano. Seus dedos agarrados aos meus. Sim, meu pai, hoje tocamos a quatro mãos.
E agora?
Porque você para mim, era mais do que palavras, frases feitas, perfeitas. Era mais do que ter um bem.
Amém, Caetano.
"De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo."
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo."
Pois é.
Ele foi andando pela rua feito um menino doido. Ela, com os olhos escorrendo água e sal, desejou que o mundo inteirinho a abraçasse. O mundo é malvado, como resposta, fugiu junto com tudo o que ela planejou e não deu certo. Mas ela não chorava porque o menino ia andando pela rua feito um louco. Ela chorava porque ela avistava águas do mar descendo de seus próprios olhos. O menino, que já vira, porém pouquíssimas vezes, chegou de mansinho, certo dia. Como quem não queria nada e ao mesmo tempo queria tudo. Andaram juntos por um bom tempo, como se o mundo agora fosse todo bonzinho. A menina, cheia de mimos e sem nenhuma coragem, amarrou o seu cadarço azul, entre os furinhos do seu all star rosa. amarrou o laço de cetim do seu vestido roxo, tentou não se aproximar, tentou ficar nas ruas daquela cidade barulhenta, cheia de pessoas corridas. Tentou ser apenas dela. Tropeçou no cadarço azul que insistia em ficar desamarrado, e na hora da queda, a única pessoa que estava lá, feito almofada de nuvem, foi o menino que ia andando feito louco na rua, a procura de uma moça bonita e medrosa.
Das manhãs.
Acordo. São seis da manhã. Respiro, inspiro. Procuro coragem dentro do meu travesseiro e animação dentro do meu cobertor, quentinho.
No meu retrato, bate um reflexo do sol acordando junto comigo; mas que diz sempre sorrindo, pra eu continuar ali deitada, dormindo e sonhando.
Pelo menos assim, o mundo fica melhor. Pelo menos
dentro desse apartamento, pequenininho.
Pequenininho, mas cheio do que ainda está por vir.
pois venha,
No meu retrato, bate um reflexo do sol acordando junto comigo; mas que diz sempre sorrindo, pra eu continuar ali deitada, dormindo e sonhando.
Pelo menos assim, o mundo fica melhor. Pelo menos
dentro desse apartamento, pequenininho.
Pequenininho, mas cheio do que ainda está por vir.
pois venha,
Da minha Morganna, querida.
Eu me aproveito de teus dizeres. É desse oceano de incertezas que nasce o amor. Vem do coração e escorre pelos olhos. De um quase sorriso se desmanchando no rosto. Rema, rema, remador. Apesar da ventania querendo derrubar o barco, eu quero poder remar nesse oceano feito de palavras bonitas e olhares doces e pedidos silenciosos de abraço. São nessas palavras que encontramos uma justificativa boba pra nosso encontro de almas. É uma saída que achei pra me entregar. Logo eu que tenho tanto medo de sofrer por ter amado demais, me entregado demais. Aí eu me apego nos meus amigos, distantes ou não. Queria encontrar formas de agora cessar essa dor e esse sofrer. Essa água que escorre dos teus olhos poderiam escorrer dos meus. Que são castanhos. E brilham quando te lêem.
Para mim.
Para mim.
...
Eu sei que as coisas vão sempre mudando. Mas eu sinto tanto medo das mudanças. Cabe em mim um sentimento inverso de ser uma nova pessoa. E sempre que tu vem aos poucos, machuca.
e machuca cada vez mais, quando tu vem aos muitos e vai embora. O que eu queria mesmo, era não caber dentro do mundo, pra logo eu me sentir gigante, talvez pela forma mais ridícula que possa ser. Eu só queria que tu não fosse embora. e que se já tenha ido, não volte mais.
há em mim uma sede de infinito.
e machuca cada vez mais, quando tu vem aos muitos e vai embora. O que eu queria mesmo, era não caber dentro do mundo, pra logo eu me sentir gigante, talvez pela forma mais ridícula que possa ser. Eu só queria que tu não fosse embora. e que se já tenha ido, não volte mais.
há em mim uma sede de infinito.
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